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Inocênte de Quê?

"É relativamente fácil suportar a injustiça. O mais difícil é suportar a Justiça" - Henry Menchen

"É relativamente fácil suportar a injustiça. O mais difícil é suportar a Justiça" - Henry Menchen

Inocênte de Quê?

29
Set18

13 - O Vigilante

António Dias

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13

 

Vítor era agora um vigilante, com a estranha cumplicidade dum graduado da polícia. Como António tinha fixado um dos apelidos dos rapazes, por ser o mesmo de um amigo de adolescência, telefonou-lhe. Soube que estavam indignados, os agentes, mandatados pelo seu comandante, tinham utilizado de forma excessiva os meios coercivos de que dispunham, no âmbito dos poderes funcionais que lhes tinham sido legalmente conferidos para o exercício da função policial. Mais tarde numa conversa com o rapaz, António soube dos acontecimentos. Quando estavam a namorar, com pouca roupa, apareceram polícias com shotguns, e tiraram-nos do carro, tendo revistado todo o veículo. Foram multados às 01h30m por “na data, hora e local supramencionados o referido condutor circular com a viatura supra em incumprimento à indicação dada pelo sinal de proibição C-2 – transito proibido”(129,70 euros), assinava o agente de nome Bruno! Os agentes tinham cometido um grave abuso de autoridade, valendo-se da posição superior de autoridade em que estavam investidos, para consumar a agressão, bem sabendo da especial censurabilidade da sua conduta. António descobriu que o seu vizinho do nº 4 tinha instalado mais uma câmara de filmar, além das seis que já possuía dentro do logradouro, não registadas na CNPD, por isso sem o aviso exterior obrigatório, desta vez numa das chaminés da vivenda, voltada para a praceta.

24
Set18

12 - O Sinal

António Dias

Sinal 1.jpg

 

 

12

 

As manobras de bastidores foram tantas, que acabou por obter uma inconstitucional autorização da vereadora Madalena que, contra os pareceres dos técnicos e da junta de freguesia, mandou colocar um sinal de trânsito que proibia a circulação de veículos, excepto os moradores e os serviços camarários. A zona pública tornava-se particular, e o Vítor deu a machadada final aos miúdos, com a cumplicidade do subcomissário Sílvio. Contou a aventura ao vizinho do nº 6, a quem aparecia a todas as horas de cada vez que este saía de casa. Como é que conseguia saber das suas movimentações, estaria sempre no jardim à espera?

- Viu o que é que se passou ontem à noite?

- Ontem à noite? A que horas?

- Uma e tal da manhã!

- Já estava a dormir, e os meus cães não ladraram.

- Quando cheguei estava junto ao seu muro um carro com um casal de namorados. Liguei para o subcomissário.

- Ligou para a polícia? Mas eles estavam só a namorar. Nunca namorou num carro? - Perguntou o vizinho indignado.

- Não há abébias para ninguém, está ali um sinal e eles estavam em transgressão. E o subcomissário disse-me que até fazia bem, era da maneira que os seus homens não dormiam e treinavam. E fiquei a ver a cena de dentro de casa. A rapariga até era jeitosinha.

20
Set18

11 - O Subcomissário

António Dias

 

Tintim 3.jpg

 

11

 

Nenhum dos outros vizinhos se sentiu alguma vez incomodado pela presença dos convivas, mas os moradores do nº4 mantiveram o seu modus operanti de resolver as situações, ou seja, a queixa permanente. A polícia deu-lhes palco e a presença das autoridades era uma constante. Mas não havia crime, o convívio não era proibido por lei. Queixava-se ao vizinho do nº 6 que os agentes, por serem da idade dos visados, ficavam muitas vezes a conviver com eles. Um dia mostrou uma lista com a matrícula de todos os carros e o registo de propriedade. Como é que ele teria conseguido uma informação tão sigilosa, de difícil acesso, que só poderia ser dada por instâncias superiores? Como gabarola que mostrou ser, Vítor confidenciou que tinha o número de telemóvel do subcomissário que comandava aquela esquadra. E foi com este que se deslocou ao gabinete do presidente da Câmara Municipal a pedir a colocação de uma cancela que impedisse os rapazes de irem para a praceta, ou um traço contínuo amarelo que proibisse o estacionamento ao longo do seu logradouro.

18
Set18

10 - O Efeito Mercedes

António Dias

 

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10

 

A licença de utilização como local de serviços ligados à saúde não é autorizada pela câmara municipal, e a vivenda torna-se unicamente local de habitação do casal. Uns tempos depois, e por nunca mais terem sido informados do andamento do acordo de permuta, uma das filhas do nº 5 faz um pedido de certidão conexa ao Departamento de Planeamento e Gestão Urbanística, e este deteta indícios de apropriação de uma parcela municipal, e notifica os dois moradores, apenas se manifestando o do nº 5, sendo então feito um levantamento topográfico, onde se conclui que a parcela municipal fora indevidamente apropriada pelo nº 4, que aproveitou a confiança em si depositada pelo vizinho (“então eu ia desconfiar de um individuo com um Mercedes?”) e apropriou-se também de uma parcela de terreno dele. Foi instaurado um processo de arresto  ao lote do nº4, e o caso foi enviado para a Polícia Municipal. Mas o Vítor e a Sílvia não pararam por aqui. Queriam a praceta para seu uso exclusivo, e depressa entraram em litígio com jovens adultos que aos fins de semana se encontravam ali para conviverem.

14
Set18

9 - Geração espontânea

António Dias

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9

 

Apareceram como que por geração espontânea no Alto das Oliveiras, numa zona de vivendas, onde construíram uma casa de dois andares, o nº 4, repleta de quartos, dois elevadores monta cargas, duas garagens, estranho para um casal de meia idade sem filhos, com catorze anos de diferença. Depressa revelaram serem misantropos. Como à frente da sua futura habitação também estava a ser construída outra, inserida num condomínio privado, Vítor não teve pejo de ir um dia fazer medições da altura do edifício, e apresentar uma denúncia no gabinete do presidente da câmara. Estava tudo dentro da lei, a queixa foi improcedente. À medida que a sua construção avançava os conflitos com os pedreiros multiplicavam-se. Foi nessa altura que conheceu um dos vizinhos, António, do nº 6, um dos três moradores na praceta. Aproveitou para dizer mal dos trabalhadores que contratara, uma vez que, por ser engenheiro, dirigia a obra. Por esta altura cessa funções de gerente da Nova Médica – Equipamento Médico e Hospitalar Lda, com sede numa garagem na Brandoa. Mais tarde a mulher Sílvia pede a incorporação da Nova – Sociedade de Construções e Investimentos Lda, com sede numa vivenda no concelho de Castanheira da Pêra, na Predial Insolvente Lda, com sede na mesma garagem na Brandoa. A construção avança, convence o vizinho do nº 5 a fazer um acerto de estremas, e este põe como condição não ter de tratar da documentação, aproveitando a ocasião para lhe pedir que não deixasse crescer as árvores que tinha plantado num corredor do jardim para além de uma determinada altura, a partir da qual lhe tiraria a vista. Vítor compromete-se a tratar da burocracia, tendo mais tarde pedido ao vizinho que assinasse uns papéis, não sem antes reiterar que iria estar atento ao crescimento das árvores. 

12
Set18

8 - Inocênte de Quê?

António Dias

 

 

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8

 

 

Como naquele Verão fazia muito calor, um lobo dirigiu-se a um ribeiro. Quando se preparava para mergulhar o focinho na água, ouviu um leve rumor de erva a mexer-se. Virou a cabeça e viu um cordeiro que bebia tranquilamente.

- Nem de propósito, – pensou, - vim aqui para beber e dou de caras com uma refeição - Eh! Tu aí, – chamou, com um ar de mauzão.

-É comigo que está a falar, senhor? - Perguntou o cordeiro. – Que deseja?

- O que é que desejo? Mas é evidente, meu malcriado! Não vês que ao beberes me turvas a água? Nunca ninguém te ensinou a respeitar os mais velhos?

- Mas senhor, como pode dizer isso? Olhe como bebo com a ponta da língua, e além disso estou mais abaixo e o senhor está mais acima. A água passa primeiro por si e só depois por mim. Não é possível que esteja a incomodá-lo! – Respondeu o cordeiro com voz trémula.

- Com a tua idade já me queres ensinar para que lado corre a água?

- Não, não é isso, só queria que reparasse...

- Qual reparar, tu não me enganas! Pensas que te escapas, como no ano passado, quando andavas por aí a dizer mal da minha família? Tiveste muita sorte por eu nunca te ter encontrado, senão já te tinha mostrado como são os lobos!

- Não sei quem lhe terá contado tal coisa, senhor, mas olhe que é falso, acredite. A prova é que no ano passado eu ainda não tinha nascido.

- Pois se não foste tu, foi o teu pai! - Rosnou o lobo, saltando em cima do cordeiro.

02
Set18

5 - Pontos nos "is" - A Sala do Tribunal

António Dias

 

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5

 

A arquitetura dos tribunais portugueses continua a ter a disposição igual à da época nazi, com o Ministério Público ao mesmo nível que o Juiz! Estão no mesmo plano da dignidade institucional. Na maior parte das sessões os dois estão em galhofa um com o outro, e até chegam a contar anedotas. É por isso que a defesa tem sempre que defender o arguido do Ministério Público e do juiz.

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